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Zé Luiz do Império

Nota do Editor: Esse texto foi escrito originalmente em 27 de setembro. A mesa de edição atrasou 2 meses. 

Acho que queria contar pra turma um passeio que dei no começo do mês passado, quando a Buru me levou pra ver um documentário indie sobre o Zé Luiz do Império Serrano num festival de cinema negro.

Eu sei que parece furada, mas me escuta.

Quem me conhece, sabe que eu levo carnaval muito a sério. Eu não cresci no Rio de Janeiro, nunca vivi isso direito na infância e por conta dessa e de outras coisas essa minha paixão pelo carnaval foi algo meio tardio na minha vida. É razoavelmente fácil entender que eu gosto muito de me fazer de ridículo no meio da rua, mas eu gosto principalmente do carnaval da Sapucaí e os sonhos exuberantes que aparecem na avenida e que são feitos basicamente por conta de um trabalho de formiguinha que nasce da amizade de vizinhos e irmãos.

Carnaval tem um clima de família muito legal e isso é algo que só ficou muito claro pra mim quando eu de fato passei a viver aqui. Eu também gosto muito de falar de samba e nunca tive a oportunidade na Alamo.

Bom, ninguém vai a festival de cinema indie por conta dos filmes pura e simplesmente. Vai porque conhece alguém na produção, conhece uma menina que vai, quer passar a conhecer alguém, quer ser visto ali na roda. Isso você saca rápido. Nós conhecíamos a diretora do filme, estávamos lá pra prestigiar.

O filme ia passar como parte da programação do ‘Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul’, era uma sexta-feira à noite e o centro da cidade estava muito agradável. Eu digo isso sobre estar agradável porque essa não é a regra. O bairro da Cinelândia mudou muito nos últimos anos.

A real é que o bairro da Cinelândia mudou muito como um todo e já vinha mudando de muito tempo. O nome dele é meio óbvio. Ele se chama assim porque abarcava uma quantidade concentrada de salas de cinema. É o bairro do cinema por excelência. Hoje em dia tem uma única sala.

Lá pela virada do século XX essa área era ali uma zona mais nobre do centro da cidade, onde alguns dos prédios mais bonitos foram erguidos, como o Teatro Municipal, o Palácio Monroe, o antigo STF e a Biblioteca Nacional. Era um tempo diferente, o Rio era capital e existia uma pompa sobre tudo.

Mas com o crescimento do centro da cidade enquanto algo agitado, rico e sujo, assim também foi ficando a Cinelândia: boêmia e fedida. Muitos bares foram abrindo por ali, para o trabalhador poder se embriagar antes de voltar pra casa e poder se distrair do vazio que é a sua vida. O Cartola famosamente foi dono de bar pela região e faliu de tanto deixar os amigos pendurarem. Os cinemas da praça foram aos poucos dando espaço para o progresso, numa história que meio que se repetiu em todos os lugares do mundo em diferentes escalas.

Mais recentemente a Cinelândia foi modernizada para as Olimpíadas, se proibiu a passagem de carros na avenida principal dela, numa sacada dessas de prefeito dinamarquês. Uma saída meio artificial, ao se falar de Rio de Janeiro, mas que naquela noite de sexta feira fez toda a diferença. Estava um bairro muito gostoso de dar passeio e comer pipoca de carrocinha.

A verdade é que não gostamos tanto assim de cinema. Depois dos espertos tanto discutirem se ele era ou não uma forma de arte, o cinema é finalmente como as outras: meio que esquecido.

Pelo menos a maneira como nós consumimos cinema definitivamente mudou e agora, como aconteceu com todo o resto, ela se restringe a poucos que verdadeiramente ainda procuram se apaixonar pela fantasia ali presente (percebe-se isso principalmente quando observamos qualquer figura que circunda os meios cinéfilos/cineastas, o clima geral de insinceridade presente na sessão).

O filme inclusive, visto por um olhar mais duro, mais técnico, mais estéril, mais morto, é bem ruim.

Para um documentário sobre uma figura da música ter um desenho de som tão pouco inspirado, uma montagem que muito obviamente não tinha o apoio de roteiro algum, cheio de cenas inúteis e sem propósito, que estão lá só pela máxima “já que captei isso, vamos botar no filme”. Não importa.

O filme é tecnicamente todo ruim, mas nada disso importa de fato. O Zé Luiz do Império é um homem tão carismático, mas tão carismático, que todo o resto é engolido pela vontade de ouvir mais desse cara. O Zé Luiz é um personagem tão legal, mas tão legal, que todas essas babaquices técnicas ficam pequenas perto do quão bacana foi conhecer esse cara.

Você sai do filme querendo ser amigo dele, e isso é meio que a maior coisa que um documentário pode almejar, fazer você querer morar no filme. Seja ele conversando com a família, com a turma dele do futebol, velhos parceiros do samba. Tudo que ele faz é ao mesmo tempo simples, engraçado e sincero. Transparece uma verdadeira mágica dessa figura e é impossível não se apaixonar por ele, um bamba das antigas que agora vive sua família e comunidade depois de um tempo de glória na juventude, as vezes meio preocupado com o futuro, mas sempre de maneira leve e amiga para com todos.

Zé Luiz é o espírito do filme, e a sua simplicidade a vontade mais forte e predominante do filme, quase que driblando constantemente a vontade do diretor de fotografia de aparecer pra caralho, a vontade da edição de incluir todo material-bruto completamente sem critério, a confusão de ideias do roteiro e todas as outras vaidades e imperfeições que estavam ali em jogo e que se fizeram translúcidas pelas lentes do documentário.

Eu saí do cinema com muita saudade de carnaval, me prometendo que esse seria o ano que eu iria entrar numa escolinha de samba, aprender a tocar um surdo ou caixa ou sei lá. Pô, Buru, a gente nunca visitou a escola de samba do nosso bairro, fica umas quatro ruas pra trás, vamos marcar?

Bom, talvez a Cinelândia nem estivesse tão bonita assim, mas depois de um filme desses, sei lá.

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