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Vasco

Um time de futebol só começa a morrer quando começar a morrer a identidade fundamental de sua personalidade.

Esse é um tema que me é muito caro, algo que já me peguei pensando muito, tantas as vezes que me disseram que meu time iria falir e fechar as portas. Mas o que faz um clube de futebol estar vivo não são seus balancetes financeiros, ou a quantidade de troféus na estante, ou mesmo o volume de sua torcida, mas o espírito fundador de cada um deles.

Esse espírito vive na personalidade de cada um de seus torcedores, vive nas vidas particulares de todos nós, na verdade, e meramente se revela semana a semana ao entrar num campo de futebol e contar uma história.

Nesse ano passado o Clube de Regatas Vasco da Gama retornou à primeira divisão do futebol nacional após o seu terceiro rebaixamento em menos de 10 anos. O que é ser Vasco?

Acho que mesmo o leitor que não mora no Rio deve conseguir perceber que o espírito do Vasco é o mais difícil de se captar hoje em dia. Dentre os 4 grandes clubes cariocas o Vasco tem a identidade mais turva e dispersa, sendo difícil achar o que une todos os apaixonados pelo clube numa única razão.

O Fluminense é por sua essência o time da aristocracia, sua história é uma grande busca para entender o que é a verdadeira nobreza. O Botafogo é o time do sobrenatural, da fantasia, e a sua história é uma grande busca por Deus em campo. O Flamengo é o campeão material, o invencível, o maior, o mais querido, o que tem sempre mais e é sempre mais que os outros. A sua história é uma busca reta pela glória material e concreta.

Mas quem é o Vasco? Mais perigoso que qualquer rebaixamento ou boleto de dívida para pagar é o processo claro e catastrófico de perda da identidade do vascaíno. Eu acho muito difícil dizer o que faz alguém Vasco, principalmente porque eu acredito que essa verdadeira identidade tenha se perdido entre as gerações e com o passar do tempo.

Para contar essa história sobre a crise de identidade do que é ser Vasco, eu vou precisar contar a vocês a história de 6 homens, “Os 6 Homens de Ouro do Vasco”. Essa é uma história boa pra caramba de se escutar ao vivo, mas por falta de opção vou me contentar a contar por aqui mesmo e vocês vão imaginando a minha teatralidade e jeitão pra contar as coisas.

O Vasco, em sua origem, é um time de colônia. Isso todos sabem. Mais importante que isso, o Vasco é o grande time do subúrbio carioca. O Vasco é na sua mais profunda essência o time da família.

Isso que estou falando é gritante e patente em todo vascaíno que você vier a conhecer com a cabeça branca. O vascaíno é um cara amigo, tranquilo, família, protetor (bem protetor). Eu nunca conheci um vascaíno com mais de 50 anos que fosse solitário e ranzinza.

O gosto pelo Vasco é o gosto pela tradição, pelas pessoas, pela história. Por ser possível olhar as conquistas do clube e sentir que fez aquilo com as próprias mãos. A história do Vasco é a grande busca daquilo que nos torna irmãos.

E essa história foi por muito tempo humilde. A história de um time de negros e analfabetos, de um time que sofreu com a profissionalização do futebol, que nunca foi o maior campeão de nada, de ídolos modestos, mas grandiosos.

E que, de pouco em pouco, construiu um estádio gigantesco só com contribuições de famílias e pequenos negócios do subúrbio, que passou a conquistar tudo nos anos 40, que cedeu grandes jogadores para as conquistas da Seleção e que pareceu se esvaziar nos anos 60 e começou a passar por uns maus bocados.

Daí é que vem a história de 6 homens que viriam para mudar a história do Vasco para sempre: Olavo Monteiro de Carvalho, Pedro Valente, Alberto Pires Ribeiro, Amadeo Pinto da Rocha, Antônio Soares Calçada e Eurico Miranda formaram um grupo de coalizão em 1979 para assumir o poder no Vasco e mudar a sua história para sempre.

Desde então, o Vasco viveu sob o governo de um desses 6 homens, com exceção do período recente em que viveu sob uma presidência mais isolada de Roberto Dinamite, o craque que deu os primeiros sucessos ao grupo político.

A história do Vasco nos últimos 37 anos foi também a história desses 6 homens brigando, discutindo, fazendo as pazes, dando apoio, investindo, traindo, mudando de lado, acusando de roubo… e transformando o Vasco em uma máquina de títulos condizentes com a sua história, chegando inclusive a tornar palpável o sonho de destronar o Flamengo como o maior campeão do Rio.

Esse sonho inclusive, acabaria por se tornar um dos seus piores pesadelos.

Esse surto repentino de sucesso, títulos e craques, somados ao crescimento do futebol e da televisão em nível nacional; o surgimento do crime organizado e junto com ele, o crescimento das torcidas organizadas; e a rivalidade crescente contra a presença maligna na Terra que é o Flamengo, tornou o vascaíno numa versão grotesca e mal-acabada do próprio Flamengo, uma espécie de Flamengo do Mundo Bizarro, em que os torcedores do clube são um bando de maloqueiros ressentidos, que comemoram as coisas mais mesquinhas e colocam as culpas das próprias falhas de caráter nos outros. Eles odeiam as fraquezas do Vasco e sonham que ele possa um dia ser, basicamente, o que é hoje o Flamengo.

Essa é uma combinação meio explosiva de fatores que afetou todos os clubes de alguma forma, alguns mais, outros menos. O jovem brasileiro anda bem caído em geral. É também bem óbvio que ainda existem vascaínos da primeira espécie, surgindo todos os dias, e eu tenho a felicidade de ser amigo de alguns dos melhores. Mas é cada vez mais raro e difícil achar esse espírito original como o norteador da história do Vasco e do vascaíno.

Hoje nós estamos vivendo o fim da linha de Eurico Miranda. Ele não vai estar aqui por muito mais tempo com saúde para governar o Vasco. Ano que vem ele completará 50 anos de serviços ao clube, 50 anos de uma ambição ferrenha, uma vida toda dedicada a tornar o Vasco no maior clube de futebol da história.

O que torna um clube o maior de futebol da história?

Isso é assunto para outra hora. Por enquanto, entre as figuras que se apresentam para suceder “Os Homens de Ouro” estão o tráfico de drogas do Borel, uma coligação entre o PT e a Força Jovem e o Caio Empresas.

Ficaremos ligados aos próximos capítulos da trama.

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