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As rotas do expurgo

Outro dia vi o filme Valley of Love, com Gérard Depardieu e Isabelle Huppert. É sobre dois atores franceses, um dia casados mas hoje distantes, que vão aos Estados Unidos se hospedar em um hotel a fim de cumprir uma missão. Esta missão refere-se ao filho que tiveram 30 anos antes, semi-abandonado por ambos após o que deve ter sido uma convivência matrimonial impossível, de implosão acelerada pelos venenos da fama e da narcisia. O filho, em 2014, suicidou-se em San Francisco, onde morava com um “companheiro”, e, num lance de aparente sadismo, convidou seus pais a um desafio póstumo que o faria “retornar, ainda que por alguns segundos” no deserto acinzentado/esverdeado de Nevada, lá onde o coiote persegue aquele avestruz.

O desafio está descrito em papel nas cartas entregues aos dois depois da tragédia. O casal então tem que permanecer junto em certos pontos do “vale da morte”, cumprindo uma sequência de atos -basicamente visitas contemplativas em rotas imaginadas pelo filho- previstos na carta. A demanda é sacrificante, muito pelo calor, pelo tédio e pela secura. Isso ocorre diariamente por uns 5 dias. Depois de cada tarefa, o casal retorna ao hotel, vai à piscina – talvez a única forma de amenizar o calor de 48 graus – e depois ao bar. Esse itinerário não está previsto em nenhuma das cartas.

Nessa rotina, os dois, que passaram uns 20 anos aparentemente indiferentes um ao outro, se reencontram realmente, na troca de intimidades, que de alguma maneira os leva a uma reconciliação, a um ajuste pacificador. A uma real e intensa restauração de laços cortados pela incapacidade humana de outrora. A indiferença cultivada pelos anos e décadas se revela uma casca arquitetada para que a nova vida construída à base de recauchutagens constantes (mais por parte dele) e de perfeccionismo idólatra (mais por parte dela) não desabasse. Para ele não convinha lembrar que ainda a queria. Para ela não convinha lembrar que, para alcançar o “sucesso pessoal”, deixou um filho de um casamento arruinado à mercê da vida e de um pai (igualmente) egoísta. O desafio lançado é, na verdade, a assunção. A assunção que antecede e climatiza o expurgo das dores e ressentimentos.

Soube que em Cannes 2015, em sua primeira exibição, o filme foi destroçado com vaias e comentários jocosos. Imagino que essa recepção desgraçada se deu por um único motivo. Por baixo do drama humano “falado” e mostrado calmamente, Valley é uma história de mistério sobrenatural, com incontestável acentuação católica. Embora todo grande filme do drama humano seja essencialmente católico, existe neste aqui chagas, vida eterna, renascimento e retorno. É um filme muito legal de assistir, é perfeitamente ritmado, encantador em cada ato e tecnicamente não há nada de errado. Há atuações primorosas, personagens que ganham vida mesmo e tudo aquilo que todo mundo que gosta de filme de maneira sincera aplaude. O que há de “errado” nele é a parte mística. Errado para o paladar mais realistão e “profanão” da cultura como de fato ela é.

Me passaram algumas coisas pela cabeça.

Primeira: do que adianta o “ocidente” produzir mongos em escala se de repente (toda hora) chega um grupo de artistas (Depardieu, Rupert, esse tal Nicloux, que escreveu e dirigiu o filme) e implode o sonho mongo de uma Mongólia continuada refazendo a boa nova “a todo momento“? É a pujança natural do expurgo operando na Terra.

A “boa nova” não é nem pelo fato do filme ser católico e trazer forte conteúdo simbólico católico, é pelo fato de ser exuberante e mexer com as fundações da alma no espectador generoso, assim como o que acontece com os personagens em cena diante de sua “paixão” (no sentido católico mesmo). A boa nova (Jesus Cristo) nesse filme – mas em outros também – é não só reencenada de um jeito diferente, mas retransmitida aos corações de um jeito novo. Há um percurso de repatriação do espectador na realidade que vale mesmo, a das grandes emoções humanas. Uma coisa inquestionável em Valley é que Jesus está por ali no deserto, não só no ato que está sendo filmado, no reencontro, mas na transformação da aridez de Nevada numa paisagem de fertilidade imaginativa e maravilhamento.

A segunda coisa que pensei tem a ver com esses jovens liberais-conservadores (ou meio dando adeus a esse campo cultural-ideológico naturalmente pilantrão inventado para vender livros sem obstáculos mais constrangedores) que são a marca da reação brasileira, da reconstituição do “amor à verdade”. Os “herdeiros da civilização sob o caos”, os “pedagogos do porvir”, que por meio de seus estudos se casaram com o catolicismo e com a “tradição” afinada numa via de “modernidade estragou tudo” (embora confessem que o capitalismo tende a levar as melhores criações humanas ao lodo apenas quando próximos de um interlocutor mais “tradicionalista” que eles mesmos; caso contrário impera o mesmo cardápio de micro-adulações, médias e fugas vigente em qualquer ambiente intelectual). O que eles desempenham é uma masturbação empolada, de inspiração subterrânea notadamente islâmica (que não vem ao caso explicar agora, mas você pode pesquisar pelo Alamo mesmo), em torno de “princípios da doutrina”, “sacralidade” e, mais recentemente, “Trump vai salvar a civilização”.

Essa masturbação libera no ambiente uns “gozinhos” perigosos, uma radiação que infesta a psicologia de outros jovens que se encantaram casual e primitivamente pela ideia de um “conservadorismo” pulsando contra “as sacanagens esquerdistas”. Essa gente, fantasiada com uma indumentária imaginária de cavalaria, deseja a “restauração da verdadeira cultura católica transcendente”, crê que a modernidade artística é um exercício continuado de perversão e adulteração da mente humana, com exceções sendo a rigor exatamente uns classicistas pudicos que habitam o mundo da erudição religiosa e (um tanto fingidamente) artistas de heavy metal com sua sinceridade carregada de “virtuosismo” e “criatividade medieval” nas “letras”. Gosta de tirar foto em catedral (a verdadeira estética santa) e salpicar textos com uns quotes religiosos do CS Lewis (umas frases que, “milagrosamente”, fazem bons autores parecerem mongos: é a mágica que emana de quem parasita o que é formidável). Essa gente decreta que há uma “hegemonia esquerdista de esterilização das propriedades mentais”, o que é amplamente irônico.

O que eu sei é que as propriedades sensíveis de muitas pessoas (de um número suficiente pelo menos) estão preservadas. Para realizar os atos grandiosos do expurgo interior e que se oferece ao exterior, ao outro e ao mundo; fazer grande arte, grande música, grande cinema, e desviar-se dessa mesquinhez toda.

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