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Um jogador

Dificilmente o jogador genial dará um bom técnico. Ele vive com o seu esporte uma vida pouco comunicável; “pensa com a perna”, como dizem. Mesmo que muito tático e coletivo, o grande jogador vive a tática e a coletividade de formas condensadas numa só Ação, na qual não sobra muito espaço para as palavras da explicação e para a gestão de habilidades alheias. O que não é egoísmo, e sim a sua generosidade dando as cartas.

Como comentadores – Ronaldo Fenômeno, por exemplo – o bom é que falam dos assuntos da técnica com a maior propriedade, dilatando nosso conhecimento por duas frentes: 1. a do conhecimento material (físico, prático) e 2. a do conhecimento dos ecos de uma vida de futebol (técnica total).

Mesmo se o primeiro tipo falha (e geralmente não falha), é muito legal ouvir o Ronaldo, o Juninho, o Falcão e o Casa retomarem seus tempos com a alegria contida e engravatada das cabines da Globo. Eles sempre parecem ter um motivo a mais para sorrir, e retomam a alegria mesmo quando não falam dela diretamente – daquele passado “ativo” – e aí é que está uma pista abismal da sua técnica. O que foi, afinal, o futebol jogado por aqueles que hoje são os entendedores e explicadores do futebol?

Sabemos ao que eles retornam, sabemos o que eles continuam nessas falas e aparições. Independentemente do que digam e como o digam, a gente sabe que eles estão falando do futebol jogado, do futebol que viveram, e gostamos de dar espaço aos seus comentários. Por sobre os jogadores novos, suas vozes pairam em nossas TVs para todos.

Como técnicos, há o problema que falamos no início. O ex e eterno jogador pode tender a não comunicar, e podemos imaginar uma situação em que o jogador treinado pelo gênio sofra diversos incômodos. Por exemplo:

Não entender as limitadas falas do gênio e daí se sentir pior, aquém e muito aquém do técnico que é um ídolo, um exemplo – pensa o jogador já confuso – máximo e que deveria bastar para o bom andamento do treino. O jogador quer aprender com o seu professor, que fora um inspirador, e pensa que o mal canal de comunicação é a sua própria – do jogador novo – limitação desportiva.

E o técnico, por sua vez, pode entender que não sabe mesmo explicar o que lhe parecia tão básico, tão uno, e isso ser angustiante até um ponto em que ele queira desistir, largar o que hoje lhe aparece enganosamente como “tudo”.

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