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Um card de base sobre coisas de base

Na base da psique, onde pensar e sentir ficam especialmente entrelaçados na mesma coisa, moram princípios que se impregnam pelo resto do que a gente pensa, sente e faz, individual e coletivamente. Em geral isso é inconsciente, mas não importa muito se é consciente ou não, e esse inconsciente que falo não é naquele sentido que se usa em teorias psicológicas, digo só que é uma coisa não se repara muito, não se mexe muito também.

No começo do filme Sniper Americano tem uma conversa de mesa na qual o pai do menino que iria se tornar o sniper fala pra ele: “Existem três tipos de pessoas no mundo: ovelhas, lobos e cães pastores”. Resumidamente as ovelhas seriam as pessoas passivas, que não sabem como se defender dos lobos, que são as pessoas agressivas e más. Os cães pastores seriam aqueles que têm um certo dom da agressividade e uma propensão a proteger (a justiça, ou pelo menos “os seus” como diz esse pai). É por acreditar nisso que mais tarde o sniper fala tranquilamente, para um psicólogo que se mostra algo chocado, que ele está pronto para encontrar o seu criador e responder por cada um que matou. Não é pra pensar que a coisa é assim divididinha na realidade, não é assim, pode ter gente que pende pra um, pra outro, é propenso a ser um mas se esforça pra ser outro, é um pouco de um e um pouco de outro e assim por diante. Mas não é bem a validade ou não dessa tese do pai do sniper que me interessa aqui.

Experimente por exemplo tirar o cão pastor dessa fórmula, aí só existem dois tipos de pessoas: ovelhas e lobos. Isso aparece expressamente na filosofia do Nietzsche e latente em uma porrada de conjuntos culturais (pra ficar em um símbolo só, pensa naquela máxima empresarial meio dita meio só praticada de “ou você é o prego ou o martelo”). Bom, dividindo assim você só pode ser opressor ou oprimido, e como ninguém quer ser ou se sentir como oprimido, sobra tentar ser o lobo ou então erigir um monstrengo de cinismo onde se finge lutar (ou, às vezes, se luta de fato) pela subida da ovelha ao poder (valendo isso tanto para os que são oprimidos de fato, ou se sentem assim, quanto para os que no fundo se sentem opressores e não querem conviver com a ideia, a culpa de se-lo), em nome de uma noção deturpada e confusa de justiça, e como a conta não fecha (porque, entre outras coisas, iria ter outros oprimidos) você vai ter que ficar adaptando o discurso o tempo todo e forçando a realidade pra entrar nele, é o inferno, e o inferno é um lugar onde vale tudo, tudo “tem um ponto”.

Se você começou a pensar “ahh mas tá muito fechado isso, tem outras formas de pensar isso aí” pare, esse card não é pra discutir essas teorias. Esse card é sobre como convicções de base são delicadas e determinantes, como diferenças aparentemente sutis nas convicções básicas determinam diferenças enormes em todo o ser de uma pessoa, um grupo, uma sociedade.

E uma coisa mais: essas tais convicções de base são o que está, mais ou menos escondido, no cerne de filosofias e religiões (variando esse ‘escondido’ de uma para a outra e também pela disposição do praticante), e é evidente que ninguém precisa estar consciente das bases para estar subscrito (talvez submisso) a uma filosofia ou religião (que nesse sentido cultural, e só nesse sentido, estão colocadas aqui como coisas de mesma natureza). Uma pessoa/grupo/sociedade não precisa ter lido Kant ou se interado do que é o iluminismo para ser katiana/iluminista, nem ter lido/estudado a Bíblia para ser cristã, e assim por diante.

A coisa mesma está lá nas convicções de base, e ela vai se mostrando, se desdobrando no tempo e nas situações concretas. Esse é um card de base.

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