website statistics

São Cristóvão 1 x 2 Americano

Assisti um jogo de futebol e quero contar pra vocês.

No último sábado eu levei um amigo para assistir um jogo na Rua Bariri, em Olaria. São Cristóvão e o Americano de Campos foram jogar pela Segunda Divisão do Campeonato Carioca e a gente foi lá conferir como andam rolando essas coisas todas.

Esse nosso interesse no jogo vem de algum tempo, motivado pelo período em que esse meu amigo andou trabalhando no bairro de São Cristóvão, e o exercício diário de passar em frente ao clube do São Cristóvão e ficar de olho no estádio, ver o bairro em geral e se afeiçoar pelas coisas.

Muita gente da cidade gosta de ver esse estádio, passa por ele e fica curiosa “o que será que aconteceu com o São Cristóvão?”, e fica a lembrar que um dia ele foi grande e ganhou coisas, e que ainda não muito tempo atrás ele veio a revelar um atacante carismático​ que meio que virou o primeiro jogador-estrela-de-hollywood.

O estádio agora se chama Ronaldo Nazário de Lima e fica bem no coração da cidade, do lado de uma das mais importantes vias expressas que liga a Baixada Fluminense à Zona Sul, mas, como o jogador de verdade, esse estádio anda meio interditado.

Esse aliás é um problema geral na Série B1 do Carioca (eu odeio esses nomes-eufemismo pra série ruim): quase todos os times são obrigados a mandar seus jogos em estádios de outros times. O campeonato chegou inclusive a atrasar uma semana, porque os bombeiros fizeram uma geral e só liberaram dois estádios pra jogo. É nessas confusões que o São Cristóvão foi mandar seus jogos em Olaria.

A gente tava bem animado pro passeio, de pegar o Ramal Saracuruna e ter que caminhar por um bairro diferente, e conhecer um pouco mais desse universo do futebol de time pequeno. Tinha um clima legal de investigação no ar. Dois detetives indo solucionar um crime que havia sido cometido contra o futebol de bairro.

Os times de bairro sofreram muito com o crescimento do futebol enquanto negócio, e agora a Primeira Divisão do Campeonato Carioca é praticamente dominada por times de prefeitura e o ocasional monstrengo de empresário, então era legal que a gente fosse investigar o que estava rolando ali.

Nós estávamos empolgados com o jogo apesar da terrível campanha do São Cristóvão que havia colecionado 12 derrotas e 1 empate até então. Eu acreditava que a nossa presença no estádio poderia ser fundamental para o time dar uma virada e evitar um novo rebaixamento.

Nosso otimismo deu lugar a uma certa apreensão quando chegamos ao complexo esportivo, não encontrando ninguém nas bilheterias. Ninguém. Nem torcedor, nem vendedor. Bilheteria de estádio antigo é só um buraco na parede, né? A gente sequer sabia dizer se alguém estava lá para ouvir nossos gritos. Ficamos com um certo medo de ter errado o dia ou o horário do jogo, sábado, 15h, não é exatamente o horário mais popular no mundo do futebol. Será que a primeira culpada desse crime poderia ser a Federação?

Fomos até a entrada social do clube e perguntamos a uma mocinha da secretaria pelo jogo. Ela nos vendeu os ingressos ela mesma, e nem fez com que a gente entrasse no estádio pelos portões normais, deixou a gente entrar por dentro do clube do Olaria, com acesso basicamente a qualquer ambiente ali, piscina, bar… Por míseros 10 reais fomos sócios do Olaria por um dia.


Ainda estava rolando uma competição de natação ali na área da piscina. Pudemos dar uma rápida conferida nos talentos do futuro enquanto aguardávamos o início do jogo. Muito promissor, vem coisa boa pro Brasil aí.

Mas voltando à nossa aventura principal: quando entramos de fato no estádio, estava claro para mim que se trataria de uma tarde diferente para o São Cristóvão. Eu estava convicto de que estava prestes a assistir a primeira vitória do time no campeonato.

Nossa torcida veio em número muito maior que o adversário (uns 60 contra 15), basicamente formada por famílias de jogador, sócios entediados do Olaria e o que acho que eram empresários. Eu inclusive penso ter visto pelo menos um sósia do famoso “advogado do Fluminense”, Mário Bittencourt. Tenho quase certeza que era ele. Toda a imprensa presente era da própria rádio da Federação, o que meio que inocenta nosso primeiro suspeito. Eles não querem a morte do São Cristóvão. Eles precisam do São Cristóvão para sobreviver.


O time do São Cristóvão era muito jovem. Dava pra sacar que a maioria ali não era viva quando o Ronaldinho Fenômeno usava esse mesmo uniforme, com exceção de um zagueiro xerifão que parecia inclusive ter jogado com o craque de tão velho que era. Nosso xerifão era o capitão do time e disparado o pior no aquecimento, errando passes de tudo quanto é jeito, demonstrando uma deficiência técnica de se invejar.

Algo a se comentar também era como o nosso time era muito mais bonito que o adversário. Nossos jogadores vestiam muito bem o uniforme do São Cristóvão, todo branco, corte elegante. O uniforme era fruto de uma parceria muito bem bolada entre o clube e os publicitários da marca de camisa de playboy Reserva. São Cristóvão é um bairro industrial na Zona Norte do Rio de Janeiro, onde estão a maioria das fábricas de roupa na cidade.

O nosso centroavante passou metade do aquecimento no alambrado conversando com a namoradinha, todo pintoso em seu uniforme, enquanto o time do Americano tinha que se contentar com um daqueles uniformes de material vagabundo que ainda vinha com uns 10 patrocínios diferentes, tudo de muito mau gosto.

O jogo me parecia bastante com um Bem versus Mal clássico, nosso time sendo o azarão clássico, que precisa vencer o obstáculo colossal em nome da honra e tradição, contra um time meio feioso, que até pouco tempo tinha os privilégios de ser “o time da Federação”, sob a administração Caixa D’Água.


A quantidade de jogadores com cara de menino no nosso time faz sentido, algum empresário deve simplesmente despejar esses garotos aí depois deles serem meio rejeitados pelos clubes grandes, uma coleção de garotos que bateram a idade máxima na base, não foram integrados aos profissionais, mas ainda têm esperança de viver disso. Os empresários são meus segundos suspeitos por ter matado o São Cristóvão.

O time entrou jogando num 3-5-2 bem arrojado, nosso xerifão na sobra, jogando de líbero, à la Lazaroni, passando a segurança pra meninada se soltar.

A partida demorou uns 10 minutos pra começar porque o pessoal da torcida do Americano tava meio enrolado pra pendurar uma faixa. O 4° árbitro da partida foi ajudar lá eles, num festival de palpites do que se estava fazendo errado, mas trazendo muita suspeita do nosso lado para com esse envolvimento do árbitro com a torcida deles.


Saída de bola, 1 a 0 Americano.

Eu já deveria saber melhor que isso ia dar errado, mas o coração do torcedor às vezes se deixa enganar por cada coisa. Ainda no primeiro minuto de jogo, sem que o nosso time possa ter tocado na bola, tomamos um gol. Bola na área, goleiro saiu e não viu nada, o atacante cabeceou pro gol vazio.

Esse nosso goleiro é outro figura, ele não devia ter mais que 1,75, um daqueles goleiros baixinhos e enérgicos, o famoso “goleiro de handebol”. Saiu do gol errado no primeiro lance do jogo e saímos atrás.

O Americano é um dos melhores times do torneio. No primeiro turno fez a final contra o Goytacaz em um clássico da cidade de Campos, mas saiu derrotado depois do jogo terminar em briga.

Mesmo com uma campanha muito melhor que a nossa, o time deles não soube mostrar muito domínio. Quando saiu o gol tão rápido eu logo vi uma goleada, mas o que rolava mesmo era muito passe errado no meio e faltas de zagueiro grosseirão. Os times atacavam mesmo era em bola parada. Qualquer falta era motivo de se jogar a bola na área.

E foi assim que ainda no primeiro tempo empatamos. Bola na área, corte da zaga, um jogador nosso pegou um sem pulo muito maneiro que pegou na trave e entrou. Golaço.

O gol deu uma animada na nossa torcida, mas nada que alterasse os eventos. O jogo transcorre basicamente em silêncio, com os sons do gramado mesmo, sem folia ou muitos cantos. A torcida não está ali para incentivar o time. Ela conversa é com o juiz. Tudo que se grita para o campo tem a ver com a atuação do juiz, é como se se estivesse assistindo a um jogo em que o juiz estava jogando.

Também se xingava muito o Shailon, camisa 7 do nosso time. Pelo menos eu acho que esse era o nome dele.

O nosso time tinha um problema meio grave de excesso de meias. Pelo que deu pra sacar dos meninos jogando, qualquer um que fosse habilidosinho tinha vaga no time. A ideia é simples mesmo. É melhor botar um habilidosinho que um grosso. Mas o jogador habilidosinho, ainda mais quando cercado por um time de cabeças-de-bagre, tem uma alergia fudida a marcar. E no nosso time o lateral-esquerdo era um meia, o segundo volante era um meia, o segundo atacante era um meia e o nosso meia era um cabeça-de-bagre.

Esse Shailon era de todos o mais perna, um misto de Willian Arão com Jônatas, aquele volante que acha que joga mais do que as funções que lhe são atribuídas, claramente invejoso do camisa 10 que roubou dele a posição que de fato ele merece. Um câncer de moleque.


No segundo tempo a equipe do Americano fez umas substituições boas e colocou um atacante escurinho muito rápido de beira-de-campo, o famoso “homem do segundo tempo”. Aí sim o time deles começou a mostrar o domínio prometido pelas minhas expectativas.

A torcida deles até começou a cantar uns gritos mais de organizada pra tentar empurrar o time, e pra minha surpresa deu certo. Foram nem 2 minutos de cantoria e saiu o gol do Americano. 2 a 1.

Nossa torcida passou a mudar um pouco o foco do juiz para o treinador, culpado por ter demorado muito a mexer no time. Mas mesmo depois quando mexeu não mudou nada, nosso time ficou mais uma zona ainda, e o time deles quase ampliou. O tal do Shailon não saiu para desespero da torcida.

Eu fiquei pensando que os empresários nem devem estar fazendo dinheiro com o Shailon, ou qualquer garoto do São Cristóvão. Eles devem só ser emprestados durante o torneio, sem custo, pra manter eles em forma e torcer pra alguém despontar. Depois do torneio desmonta. Empresários seguem o dinheiro e claramente não havia qualquer dinheiro para ser feito nesse campo.

Talvez seja isso, não há dinheiro nenhum para ser feito nesses jogos, porque ninguém vai a esses jogos, não há interesse nisso.

Por outro lado, quando houve dinheiro nessa segundona? Me parece que nunca, que décadas atrás houvesse ainda menos dinheiro aí. O que me leva a pensar que a morte do clube de bairro tem mais a ver com um deslocamento geral do foco dos interesses. Esses clubes e esses torneios se originaram como uma expressão da vida desses lugares, desses bairros. Era o território do cracaço do bairro que foi rejeitado no Botafogo e ficou contando no bar que “tinha outro cara lá, um tal de Mané”; da epopeia que pode acontecer cada vez que a bola rola em um embate com o bairro vizinho; do universo das familias que frequentavam o clube, iam nos bailes, das namoradinhas que dançaram nos salões desse mesmo estádio em que eu estava sentado; daquele interesse que a gente tem em organizar campeonatos de futebol de botão ou bola-taco porque, ué, é muito legal.

No momento em que a segundona vira uma escada empresarial pra primeirona, que por sua vez é uma escada para o dinheiro, a fama e todas as auto-afirmações externas à vida mesma, ela morre. Morre porque se aliena da vida que a originou.

A solução para o crime que foi cometido é simplesmente ir aos jogos, viver eles. Vá a um jogo e conte sobre esse passeio bacana aos amigos.

Com uns 10 minutos ainda pro final do jogo nós já estávamos pesquisando os clubes da série B2. Angra dos Reis, Arraial do Cabo… Tem umas viagens boas a se fazer. Quem sabe num próximo episódio.

Nota: Enquanto essa matéria passava pela mesa de edição, veio à tona nada menos que este escândalo envolvendo compra de jogos da série B1.

-
Visite nossa página no Facebook