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Imaginação Brasileira

Que é uma monguice ficar falando de eleições americanas de fora e com paixão (monguice no entanto plenamente praticada nos últimos meses), todo mundo tem que saber. Mas essa reflexão não é propriamente sobre o pleito.

Vou falar das coisas do materialismo mental e da porcaria imaginativa brasileira, do sistema apodrecido de pensamentos impregnado em cada membro dessa associação curiosa que é a reação conservadora brasileira.

Vou falar desse caso recente da Hillary e seu (não sei direito se é isso) assessor.

Surgiram e-mails falando de um suposto ritual artístico-espiritual (“satanista”) entre membros da equipe democrata. As mensagens geraram então uma conclusão óbvia: Hillary Clinton é “satanista”, faz parte de um programa ocultista-satânico de tomada de poder.

Ou seja, o satanismo precisa se comprovar factualmente, ser percebido nu, vir berrando para penetrar nossa rede de percepções. Tem que irromper com um selinho escrito: “satanismo” (jantar com sangue de bicho, com gozo de homem, com leite de mulher, essas coisas mais de New York mesmo, desde a época de The Knick). O satanismo é o que deveria ser mesmo, se formos perguntar para uma criança: um ritual satânico com sangue na parede. Não aparece de maneira menos triunfal e portanto mais real: por um lado disfarçado de coisas neutras ou boas, como “restauração”, “amor pela América”, “amor pelos valores americanos”, e por outro com o rabo solto na compulsão pelo poder e pelo dinheiro.

Para essa gente o satanismo não se realiza no âmbito que qualquer imaginação menos degradada perceberia.

Donald Trump e as elites corporativas-empresariais, os arrivistas insaciáveis que roem as fundações mais nobres da vida humana desde a base, não são “satanistas”. Um “magnata” cooptado e promovido a empregado de elite do empreendimento esotérico “tradicional” russo (esse a substituir verdadeiramente a União Soviética “clássica”), a gerentinho da ordem marombeira ortodoxa e antissemita do Putin, não tem relação nenhuma com satã. Com gnose, com reforma do mundo pela ação dos “mais fortes e cultivados”.

Satanismo é um pessoal artsy de Nova York fazendo umas bruxices fashion e mandando e-mail pra convidar. Satanismo é a parte mais bobinha, o segmento fútil & consagrado pela mídia, a quinta divisão da arte americana e mundial, que sempre foi, a seu modo, “satanista”, “satanistazinha” na verdade, uns esoteristas meio bocozões de Manhattan.

O Brasil merece mesmo toda ordem de picaretas (satanistas) governando cada mínimo movimento mental que trafega e se espalha por sua atmosfera imaginativa.

Um povo e uma civilização são definidos (simbolizados e em última análise CRIADOS, fabulados) por suas ficções (musicais, teatrais, literárias), e nada mais. As ficções dão origem aos povos e depois os reconduzem à existência. Que existência será essa é que é o ponto crítico.

Nenhuma ficção grandiosa, vital ou rica vai surgir da imaginação brasileira, principalmente a imaginação direitista brasileira, que quer semear o futuro no campo aberto após a pulverização pública da esquerda. Para uma ficção assim emergir é necessário saber imaginar as coisas, o mal e suas variações sutis, suas linguagens envolventes, em primeiro lugar. A direita brasileira, ironicamente encarnando em si a acusação que ela mesma usa contra a esquerda, é uma empresinha liderada por uma meia-dúzia de psicopatas que nutrem inseguranças e promessas de elevação em histéricos, levando-os em uma expedição da alma para um deserto sem volta. A miséria imaginativa brasileira, com seus cacoetes, que já não sabemos se são reflexo de puerilismo ou perversão, é a verdadeira história do Brasil recente. É a pomposa estrada para o formidável nada.

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