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Eleição Presidencial

Fiz uma sinopse completa, na verdade uma espécie de pequeno conto de ficção, pra quem quiser a partir dela criar um roteiro para série, filme ou mesmo um livro; um thriller de horror político no suporte que preferir. Quem desejar usar como marco inicial para algo saiba que está desde já autorizado, apenas dê crédito no final. Nas tags vou deixando opções melhores de título, acho que todas elas mais ou menos referentes a títulos que o estúdio Herbert Richers sonorizou e dublou no passado.

Segue a história:

O comunicador mais célebre da maior e de fato onipresente rede de televisão do país se candidata a presidente, cresce sobretudo depois da morte do maior líder da história da esquerda latina e começa a se equiparar em números ao candidato que mais desenvolvera-se e arregimentara apoios ao longo dos últimos 7 meses: um ex-cabo do exército e pequeno vigarista durante toda vida que fora alçado à vida politica uns 30 anos antes para proteger sorrateiramente os esquemas da corporação.

Esse ex-militar, depois de anos, revelou-se um projeto viável de poder institucionalizado para alguns órgãos ocultos do “controle social obscuro”, dentre eles a maçonaria e Luiz Bianor Aziz, o líder de uma espécie de culto de reconstrução nacional, “ressurgimento da ordem” e “saneamento civilizatório” que recrutara e forjara nos últimos 10 anos, além de alguns jovens universitários munidos de iniciação na cultura clássica e esotérica e nas “investigações existenciais”, uma legião de filhos semi-analfabetos de zeladores e pequenos comerciantes ressentidos com os destinos do país. Eram rapazes religiosos (a maioria declarar-se-ia católica se perguntada), armados com a chamada “coragem física” e com coleções subterrâneas de revólveres para uma revolução contra o estabilshment esquerdista o qual erguera-se ao longo de uma lenta gestação estratégica para fazer sua pátria sangrar e definhar.

Esses seriam os guardiões civis, metafísicos, oficiais, morais, intelectuais e corporais do ex-cabo, uma vez que o exército mesmo não se incumbiria de vigiar pelo bem-estar de seu testa de ferro um dia empregado e agora alforriado para vôos maiores.

O comunicador conquista o apoio dos grandes veículos, de parcela importante do empresariado (isso desde sempre) e consegue, de forma inesperada, desmoralizar não apenas as capacidades intelectuais reconhecidamente estritas do militar prematuramente dispensado, mas também suas qualidades morais, até então decantadas e insufladas à boca popular pelo esforço de um sistema de propaganda detalhadamente elaborado, sofisticado, que tinha a gerência de alguns dos pilares e representantes mais ilustres do culto de Bianor Aziz, pessoas do ramo cultural que ao longo dos anos escalaram posições, ocuparam cargos e produziram obras laterais, mas enfáticas, sobre a “crise da civilização nacional”; a guinada “satânica de uma cultura”; a “dignidade do homem comum”. Livros, filmes, artigos e peças que de maneira sub-reptícia ou nem tanto elogiavam a “clareza moral” de pessoas “simples”, “esmagadas pela ditadura midiática e cultural patrocinada por uma elite global filistina, nefasta e antitradicional”, um comitê de criminosos sem face que “não falava a língua das pessoas reais da nação”. Houve uma laboriosa tecedura cultural, que antecedeu e serviu de solo para o crescimento deste homem “do povo”.

O cabo crescera, mas na TV, habitat natural, território por excelência de seu rival polido de ascendência empresarial, foi desmanchado: não era apenas inculto e moderadamente cretino, o cabo era safado. Por trás de qualquer fascista o que existe é muita coisa, mas além de tudo um dono de um banco, um chefe maçom pertencente ao topo da estrutura mundial da sujeira, aos andares mais privilegiados da patifaria. Tudo aquilo que o militar queria omitir em relação às suas ligações com o sistema clássico da corrupção veio à tona. Mas não fora suficiente ainda para debela-lo, tira-lo do páreo.

O conto protonazista do agente enviado por Deus para salvar um povo das garras do globalismo e dos “judeus” (“donos do dinheiro”, pensadores marxistas e artistas em geral) desintegrara-se, pelo menos nos ouvidos de apoiadores outrora fervorosos mas pertencentes a camadas consideradas mais “esclarecidas”- um grupo de uns milhares de conservadores ativos na internet que algum cronista batizara como PMBL, “Paróquia Mórbida da Banda Larga”. O povão mesmo, contudo, ainda estava comovido pela objetividade de vendedor do centrão, de funcionário de lojinha de bugigangas com alta rotatividade daquele cabo, embora estivesse em parte também enfeitiçado por um “tino caridoso” que modelara desde o começo a tática de ascensão do comunicador.

Faltam 3 dias para as eleições. É provável que o comunicador e o ex-cabo estejam ambos no segundo turno e dividam o país. 50 pra cada um. O militar conhece os podres do representante do “estabilishment”. Sabe de suas puladas de cerca nada infrequentes, de suas ligações suspeitas com homens que enriqueceram através de conexões “tóxicas” com figuras internacionais do crime. Sabe de pelo menos dois filhos fora do casamento bem-lustrado e icônico com uma ex-modelo e também estrela nacional, cantora de sucesso em um passado mais ou menos recente.

Uma coisa que ele no entanto não sabe é que de uns tempos pra cá o astro deu pra esmurrar a esposa carismática de vez em quando. Quebrar-lhe a cara, mas em um limite minucioso de agressão em que as maquiagens ainda podem corrigir o estrago. Essa mãe, cansada, resolveu nesse dia, depois do jantar, contar a dois dos filhos do casal (eles têm 4, trigêmeos e uma caçula) que o pai havia sido pressionado e enfim revelara que o desvio mensal de 115 mil dólares em uma das inúmeras contas familiares eram para despesas e caprichos de uma mãe e seu filho, que mora na Florida, Estados Unidos, e recebera o mesmo nome do pai: Ricardo Stein Júnior.

O apresentador Ricardo Stein não precisaria mais esconder da esposa, Jéssica Martins Stein, aquilo que até o ex-cabo Elias Sabino Donatti e sua equipe treinada na modalidade cibernética “infowars” sabiam havia meses e não divulgaram apenas porque avaliaram que o vazamento cheiraria podre demais e prejudicaria mais os atacantes do que os atacados. O ex-militar, já no início de uma razoável carreira como dono de uma frota de táxis, também arrebentara umas 3 vezes a cara de sua primeira esposa, Eneida, mãe dos primeiros 2 de seus 9 filhos, hoje alojada em um hospital para inválidos e mentalmente incapazes, recebendo 4 sessões de diálise por semana depois de uma perna amputada que não fora salva porque a senhora de 64 anos era, até o início da temporada presidencial, francamente miserável e, desde o começo da década, não recebia visitas sequer dos filhos. A situação pesara no cálculo de sua equipe: o caso Eneida poderia muito bem ser usado como contra-ataque expresso, ferindo irreversivelmente a reputação popular de Donatti.

O trigêmeo que chegou ao mundo por último (4 minutos depois do segundo, 13 depois do primeiro), Marcelo Rodolfo Stein, 16 anos, foi paciente também em seu posicionamento na cozinha da mansão da família, agachado atrás da porta corrida e semitransparente que dava para uma varanda, bem ali onde repusa uma máquina de Coca-Cola importada em que Ricardo escolhia um refrigerante (Cherry Coke era seu predileto) todo dia ao voltar do escritório de campanha tarde da noite, geralmente sem seguranças. Ricardo entrou em casa um pouco depois das 4 da manhã. Ao apertar o botão correspondente à Cherry Coke sentiu o impacto agudo de algo laminado e pontudo no pescoço e depois não sentiu mais nada. O corte foi profundo e amplo. Outras incisões foram ensaiadas ou realizadas, algumas atravessando muito além dos tecidos superficiais na região dos rins e estômago. As eleições estavam decididas.

Antes de telefonar à polícia avisando do ocorrido a fim de se entregar, Marcelo, um menino visto como calmo e tímido pelos colegas, um velejador nato e um adorador dos esportes náuticos que jamais portaria-se como um menino rico e pedante mesmo diante dos mais íntimos, sobe as escadas até o terceiro andar, onde fica seu quarto. Ali, abre a quarta gaveta de uma escrivaninha de mogno comprada na Dinamarca pelo seu avô paterno e enviada para montagem em razão de seu décimo aniversário anos antes. Da gaveta tira uma figura sacra impressa a laser, uma pintura de estilo medieval que mostra a ascensão de um homem ferido em meio a uma batalha. Na parte de baixo vê-se a inscrição: “Deus Vult”. Marcelo dobra o impresso e o coloca no bolso esquerdo da calça.

Esta sinopse é uma peça de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.

(a foto é uma pintura do gênio americano F. Scott Hess).

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