website statistics

Despertar malígno

A cultura direitista ascendente pode ser uma cultura mesmo, um cultivo de ‘bens espirituais’ compartilhados por uma coletividade, mas equivoca-se quem pensa que ela não é, antes disso, elemento de uma “cultura” maior e vigente no horizonte humano brasileiro: a da sacanagem perfeitamente temperada com uma soberba estupidez.

Não penso nos escritores verdadeiros, nos compositores, nos cineastas, nos criadores vivos mais dignos da nominação “artista” (Farhad Safinia, Todd Kessler, Jonathan Franzen, James Gray, Laura Mvula) sequer imaginando ser possível que uma obra sua venha embalada em algum mote, em alguma convocação massiva, em algum refrão para as massas revoltadinhas da internet, em alguma chamada “cultural”- quer seja uma pilantra e falsificada como é o caso desta que inspira o post, quer seja uma que esteja coberta pela realidade e pela força dos acontecimentos verídicos. Quem vive na grandeza artística jamais vai se infectar e infectar os outros com reflexos neuróticos (e eventualmente criminosos, por conterem altíssimo componente de vigarice deliberada) tais quais “restauração cultural”.

“Ah, mas a questão é como saber quem realmente quer restaurar a cultura e quem está apenas se aproveitando do momento.”

O momento não é só de aproveitadores conscientes. O momento é também de aproveitadores lenientes, compulsoriamente ativos em um ordenamento de aproveitadores que os orquestram.

Não há cultura alguma a ser “restaurada”. Essa é uma posição (a do “restaurador”) que nasce de um mal estar pessoal e que, ao invés de se assumir como tal, se refugia em uma ideia falsificada e falida de tradição a ser “defendida” (“a civilização moderna substituiu a civilização real”, “a teologia da libertação acabou com a Igreja”). Uma ideia falida e continuamente sendo arruinada por aquilo que a própria realidade mostra, sendo a arte que se faz , os artistas (esses que citei e milhares de outros), apenas um pedaço dessa amostragem da realidade.

Restauração cultural e “estudos clássicos”, e também “antiprogressismo” e “tradicionalismo”, são afluentes de um mesmo sistema, de uma mesma bacia de águas mortas, e esse sistema é o da neurose civilizatória e da insatisfação existencial (muitas vezes despertada quando se sente ou se toma consciência de que certa grandeza artística dos dias não é alcançada, absorvida, entendida etc).

Fora que ninguém “restaura cultura” alguma. Não existem “meios” materiais para isso. A “morte da inteligência nacional” alardeada pelos orquestradores desse estado artificial de dissidência reativa e corretiva é um dado falsificado, porque a inteligência (moral, artística, etc) da massa e da pessoa urbana é morta com exceções, e é essa sua natureza. Porque ninguém mexe no controle da natureza das coisas humanas e da natureza da evolução das coisas humanas (o impacto daquilo que o PRÓPRIO humano de um determinado lugar quer criar e ser) “transmitindo conhecimento”. Porque a natureza das mudanças no mundo é radical e misteriosa, abissal e “motorizada” por turbinas próprias. Esse sentimento insuflado de resgate de todas as “coisas belas e altas” é o maior trambique da história nacional.

Quem parar para pensar uns dias verá que o que está por trás da arte e da literatura ativista de direita é um salto evolutivo. O trambique escrachado, o mate de praia com barata, o computador Dell com peças de um Positivo e só a carcaça do Dell original ali no Mercado Livre, o táxi dirigido pra rodar distâncias obviamente fantasiosas, o pai rico e “cristão” que compra carta de motorista pra filha lambisgoia que entrou na FAAP, o estudioso ridículo das coisas profundas que adquire um irreversível sotaque inglês de tanto tentar impressionar os outros com a língua. Tudo isso, toda essa mistura de escrotice e patetismo, se funde e se torna a versão mais potente e sutil da malandragem. A versão mais avançada da enganação, em forma de produtinhos para robôs psicopatas recém fabricados e despertos em suas capacidades mais formidáveis (sloganzinhos “fora islã”, vestir fantasias virtuais de templário, saber atirar, talvez sobretudo depois de uma bebedeira culminando com encontrar algum grafiteiro no muro do seu prédio-fortaleza, etc).

* a foto do post é de uma obra do monstro moderno Lawren Harris.

-
Visite nossa página no Facebook