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Da zumbilândia de 2013 até hoje

Dá pra contar uma história – uma história naquele sentido que a ficção faz, de extrair elementos do mundo e compor com eles de forma a se expor o que há de essencial e super-real, real em um sentido mais forte de realidade do que a dos acontecimentos ordinários desfocados, desarranjados em um desarranjo por trás do qual o real ao invés de se mostrar se escamoteia – que começa na zumbilândia de junho de 2013 e termina no impeachment da semana passada.

Talvez exista ou tenha existido um ambiente coletivo tão lombrado, caquético, quanto o brasileiro da pós-redemocratização, mas este sem dúvida se destaca nesse ramo. Penso na profundidade da dormência necessária para que se passe três décadas morgando enquanto uma cultura doentiamente farsante vai tomando conta de todos os aspectos determinantes de um ambiente mental público. Foi preciso que isso chegasse, em junho de 2013, à forma aberrante de bandos de zumbis alucinados de vazio e fingimento, tomando as ruas para descontar uma bagunça de sentimentos moribundos e histéricos (do tipo que não sente de fato o que afirma sentir) na cabeça de um inimigo confuso, meio inventado (naquele sentido de invenção que se assemelha a falcatrua) e conveniente. No frigir dos ovos essa cabeça golpeada acabou por ser a cabeça dessa sociedade lombrada, que, finalmente, começou a se prestar a perceber o que há tempos era gritante: que algo não estava certo.

Por que estou retomando essa obviedade agora? Porque ao ver agora nas ruas o retorno de uma amostra do que aconteceu (ou, digamos, desembocou de uma vez) em junho de 2013, eu notei que já tinha meio que esquecido como começou essa história, essa história que eu disse que dá pra contar.

A reação que veio da sociedade lombrada veio de forma desesperada. Hoje em dia é fácil notar, por exemplo, como o fantasma da associação artificial, de ocasião – formação de um esprit de corps que a gente poderia chamar de ‘de direita’, ou, o que acho mais adequado, de ‘antipetista’ – começou a assombrar por aí, em moldes que bem observados guardam boas similaridades com o tipo de associação que o petismo já tinha consagrado. Embora eu não pense que tudo o que saiu disso foi ruim e ache que até dos piores produtos salte um aprendizado que era imprescindível, é inegável que foram surgindo grupos bizarros, passeatas estranhas, que foram nascendo ambientes e emergindo figuras no mínimo temerárias do que quer que fosse ou parecesse diferente da desgraça petista. Em dado momento você era capaz de olhar para criaturas mais obviamente zuadaças, como os publicitários adolescentes do MBL, perceber que tinha ali algo de muito zuadaço, mas pensar coisas como “vish, que que é isso?? mas, bom, diante de tudo, deixa eles, tem coisa pior pra se preocupar”. Isso pra ficar com um exemplo só e o mais fácil.

Pensando agora, eu creio que um dos fatores que nos mantiveram (a mim e a outros como eu) um tanto distraídos/tolerantes quanto a certos supostos aliados espúrios, foi a sordidez cada vez mais asquerosa com que o petismo tentava desmoralizar aqueles que o destronavam. Você via, por exemplo, aquelas coberturas de passeatas feitas por petistas alocados em jornais famosos se fingindo de isentos; aquelas em que esses jornalistas buscavam entre um milhão de pessoas algum sujeito que pudesse fazer tudo aquilo aparecer no jornal como um ato meio tresloucado e meio ridículo, de amalucados e burgueses cafonas; essas coberturas e os seus arquitetos eram tão fraudulentos, tão imundos, que mesmo que nós soubéssemos que havia ali (nos protestos) algo de equivocado, de ridículo e especialmente de burguês, bastava você olhar pra um jornalista isento (petista) desses pra achar que todo o resto podia esperar.

Pulando um monte de outras coisas que dá pra contar nessa trama, a gente vai dar nesse impeachment da semana passada. Eu acho ele bastante simbólico de tudo. Existe aquela lá de que foi absurdo ser assim, de que era preciso “desmontar as bases do esquema cultural esquerdista”, que o impeachment “desvia o foco, desmobiliza, etc”. Evidente que tem verdade nisso, porém essa desmonta e essa mobilização, no seu pouco tempo de vida, já estava/está se mostrando um negócio indigesto, como se o país não estivesse pronto ou realmente não tivesse as manhas pra levar isso da forma que vinha/vem tentando.

O processo de impeachment em si foi, especialmente na fase do Senado, um negócio meio lesado, meio mongol. O motivo oficial das falcatruas contábeis, por mais que seja factual e que dê pra ver isso também como simbólico do todo, é evidentemente um subterfúgio técnico-legal, periférico/não-essencial, das motivações reais, um tipo de imposto de renda do Al Capone. A figura modorrenta esquisita da Janaína Paschoal é talvez um resumo perfeito do negócio todo. E o Michel Temer todo molengão? O Aécio que eu nem sei do que chamar? As respostas ao “é golpe!” com “nada a ver tá até o presidente do Supremo lá conduzindo com maestria”? Só que essa leseira toda não me soou como acidente, como se tivesse sido perdida a oportunidade de se fazer algo melhor. Me soou foi como tudo o que um espírito coletivo lombrado, desviante, técnico-legalista é capaz de fazer.

No meio de tudo isso houve uma figura, talvez uma só, que, mesmo sendo na prática parte da coisa toda, não me soou lesada e mongolizada: o Eduardo Cunha. Com boa vontade é fácil entender porque eu não vou tratar aqui de coisas como se ele é desonesto, bandido, afanou grana pública, etc. Não é o tema.

Qualquer um que já tenha se metido em briga com pilantra conhece bem a sensação de quando você percebe com clareza que o pilantra é mesmo um pilantra, e que não tem como discutir nada de verdade porque ele vai tratar a “discussão” na esquiva, na esperteza, ou seja, na pilantragem. Nessas situações a coisa já não é mais uma discussão (e é um estatuto basilar da pilantragem afirmar que algo é uma discussão quando não é), logo não tem como ser civilizado, apresentar argumentos e esse tipo de coisa.

Fingimento é algo sutil, eu diria que se dá em camadas, e em ambientes públicos existe uma primeira camada de fingimento que de tão protocolar já é menos um fingimento do que a linguagem própria daquele ambiente, sendo assim o fingimento de verdade, nesse dado ambiente, só começa na próxima camada. Digo isso pra esclarecer porque, mesmo que em palavras o Cunha falasse em legalidade, rito, regimento da câmara, ele o tempo todo emanava o contrário disso, parecia tratar as formalidades como meras armas de alguém que estourou de verdade, perdeu as estribeiras e partiu pra cima com o que tinha. Por exemplo a calma, o exterior cinismo que ele exibiu na votação da câmara, aquela do “como vota deputado?”, me soou como o contrário do desespero que caracterizou a reação da sociedade hipnotizada e nada muito além disso.

No fim das contas, seja qual for a sua motivação mais profunda e inacessível a nós (se é que houve algo assim, sinceramente não interessa aqui), ele acabou incorporando, na esfera da política oficial, o mais legítimo, e não por acaso mais efetivo, sentimento de revolta contra o todo da cultura doentiamente farsante que foi desembocar lá naquelas maloqueiragens de junho de 2013. Não há nada de acidental no fato de ter se concentrado nele o ódio petista/esquerdista, e muito menos em ele ser, até o momento, o único que perdeu coisas de fato com esse processo todo. O tucanato, os outros peemedebistas, o Bolsonaro, a direita zueira, a left-lib, o japinha que foi a pé pra Brasília e quase foi atropelado, a restauração católica-tomista-leitora dos clássicos em latim, todos ganharam algo. Até o petismo/esquerdismo ganhou algo já que, ora, depois de pegar inacreditavelmente pesado na provocação a um país inteiro a ponto de terminar naquilo de junho/2013, o partido/movimento sair dessa levando um impeachment todo molengão, que eles já enquadraram, esfregando as mãos, em uma narrativa histórica que vai enganar facinho os nossos netos, não é perda em lugar nenhum do mundo.

Diga o que disser sobre Eduardo Cunha (e eu não sei quase nada sobre ele para além do seu papel nesse processo, até porque, insisto, lendo isso aqui com um mínimo de boa vontade fica claro que pro tema isso não interessa), ele foi o arquiteto da pancada mais forte e improvável que o movimento de psicopatia pública esquerdista já sofreu no Brasil (antes que alguém pergunte: eu não vivi a ditadura, mas pelos resultados que chegaram até mim aquilo me parece mais uma incubadora esquisita, equivocada e meio perdidaça do petismo do que uma pancada), a cabeça dele é o que eles mais querem, e nem vão precisar se esforçar demais porque ela já foi oferecida como sacrifício por todos os outros que saíram, ou pensam que saíram, como vencedores dessa.

Voltando ao aspecto da sociedade: no final de tudo o PT reinou nesse formigueiro esquisito de dissimulação que depois o teve como inspiração lateral, produto direto e também como bode expiatório. É tão confuso quanto dá pra perceber que é. Alguns de fato tiveram-no como um sinal de que nada estava certo, outros continuaram se escondendo nele, através dele. É o caso, por exemplo, da direita marota que fica brincando de xingar feminista e lapida expressões do moloidismo triste como “pai ausente que chora no banho”.

Eu penso que dá pra contar uma história com isso. Não muito bonita, talvez feiosa mesmo, pantanosa, mas sinceramente penso que ela podia ser bem pior e o que acabo ficando, quanto a tudo o que aconteceu, é meio tranquilo, aliviado e com vontade de tirar umas férias desse tema e só voltar se não tiver outro jeito.

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