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Coronelismo urbano

A última década no Brasil foi a era de ouro do petismo cultural. Petismo cultural é algo que, óbvio, tem ligações com petismo econômico e político, mas é algo maior, mais abrangente e mais feio. É, na realidade, pra onde a desgrama toda converge. Essa modalidade de petismo atinge também quem acha que não é petista, quem não vota (mais) no PT e até quem se considera anti-petista.

Um dos aspectos marcantes dessa lombra foi a ocupação em massa das posições falantes da sociedade, especialmente as redações, por adolescentes que saíram de suas cidades no interior (ou capitais menos movimentadas) e rumaram para São Paulo em busca de realizar seus desejos de liberdade (longe dos olhares dos pais e tias) e auto-importância social (fazer parte de cenas, sentir-se influente e chique). Esses desejos são sempre mais fortes nessa tribo do que o de ganhar dinheiro, reclamar de grana entre eles é só mais uma ferramenta pra fazer um social, mudar de assunto, escamotear os verdadeiros anseios, amenizar as tensões pesadas que inevitavelmente surgem entre eles na disputa interna por poder social.

O maior medo dessas figuras sempre foi o de permanecer em suas cidades e ser uma pessoa normal, como as outras, como a sua família (a ojeriza que eles nutrem pela família em geral e pela deles em específico é algo em torno de 100% determinada por esse medo), que não ocupa uma posição de destaque na qual ela possa ver e ser vista. Tinham calafrios ao ouvir os pais sugerirem a eles arrumar um emprego comum em alguma empresa local, cuidar de um negócio da família, cursar agronomia ou algo do tipo.

Não vamos entender mal as coisas: a angústia do jovem interiorano é um fato corriqueiro, e não é estranho que ela atinja a garotada da província. A diferença entre os fenômenos normais dessa angústia e o que está sendo tratado neste card você pode intuir facilmente, atrapalharia mais do que ajudaria se esmiuçássemos aqui os detalhes do abismo que os separa.

Não falamos aqui de simples angustiados mas de vaidosos tarados por status, que traçaram um plano e já começaram a se enfiar em rodinhas de contatos, via internet, ainda na faculdade ou antes dela, que queriam ir para a cidade grande e “acontecer” a qualquer preço. Muitos foram e, dispostos ao arrivismo como ninguém, é claro que se tornaram “presas” fáceis e um material precioso para coronés de cena de todo tipo. Desses coronés eu tenho a impressão que ficavam na rodoviária de São Paulo carregando uma plaquinha com o nome de internet do guri e uma maconhinha no bolso, jogando uma rede já na porta do ônibus, enquanto pegavam as malas: “Ô fera, legal que ce veio, curti seus textos hein, vou te mostrar São Paulo, vamo pegar o metrô.”

Não é difícil perceber a relação entre esse fenômeno e o distanciamento que a mídia brasileira foi criando entre ela e a sociedade das pessoas normais, que costumavam formar o público dessa mídia. Mas a cada crise, a cada “passaralho” (demissão em massa) em um órgão de mídia, o que se ouviu até aqui foram tremendas choradeiras, movimentos de histeria coletiva – cuja massa é formada por essa garotada – em busca de culpados (a sociedade preconceituosa, os caretas, o capital, os céus), fingimentos de auto-crítica em meio aos quais não é preciso ser muito ligado pra notar que na verdade estão todos fazendo é mais social, passando mais a mão na cabeça uns dos outros e se chamando de fofuchos enquanto se odeiam mutuamente. Auto-exame confessional e sincero eu nunca vi.

Porém agora, com o petismo oficial sendo enxotado do poder federal, é possível que essa maré mude à força. É possível que as estruturas artificiais que mantém financeira e culturalmente esse sistema venham abaixo. A consequência disso será um pandemônio, um ambiente de desespero. O mais provável é que se repita a mesma choradeira mimada de sempre em versão ampliada, mas talvez seja um momento de reavaliar se as vagas na Cutrale não são até que bacanas.

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